Homenagem ao juiz Bruno Lacerda – por Orlando Frye Peixoto

Homenagem ao juiz Bruno Lacerda – por Orlando Frye Peixoto

Livro “Rio do Fogo”, de coautoria do juiz potiguar inspira conto de advogado –

Bruno Lacerda


SERIAM AQUELES OS MESMOS “OLHOS DE CÃO AZUL”?

Seriam aqueles os mesmos “olhos de cão azul” do livro de Gabriel García Márquez? Foi a pergunta que eu me fiz no exato instante em que, pela primeira vez, vi no livro de coautoria dos meus amigos Bruno Lacerda e David Leite a foto de um cão deitado nas areias de uma praia do litoral norte potiguar.

Um cão que olhou para a câmera fotográfica e que, desde então, passou também a olhar para o mundo todo e a ser olhado por quem quer que tenha a sorte de manusear esse livro dos meus amigos no qual imagens e palavras se traduzem entre si.

Um cão que ficou embalsamado, de uma folha de papel às retinas do “andarilho”, deixando-nos sozinhos a escutar em silêncio os “alaridos ensandecidos de um naufrágio encantado”.

Um cão que se enroscou como uma serpente pela ventania fria da beira-mar, traindo a sua natureza canina de correr atrás do próprio rabo para alcançá-lo.

Um cão que, com apenas uma das orelhas em pé e com aqueles olhos em glaciação, meio azulados, quase encanecidos, sem a graça da “garça” e sem a doçura da “carnaúba”, nem tentou fingir ter a postura de lobo que perdera há poucas lunações, parecendo mais ser o fiel bilheteiro em permanente vigília na estação da derradeira viagem.

E a resposta que eu me dei àquela pergunta inicial foi outra pergunta (quem saberá de verdade?), o que, no fim das contas, não faz a menor diferença, pois, assim como os “olhos de cão azul”, aqueles outros ali, os olhos azuis de cão, tornaram-se também a frase incrustada nas paredes e “por todas partes”, a senha para os encontros em sonhos esquecidos ao despertar, o sinal de reconhecimento nas conversas das madrugadas, tudo compartilhado por aquela que se crê a si própria “metálica” e que põe as mãos sobre a chama da vela para abrandar a frieza de sua “piel de cobre al rojo”.

Agora, dois pares de olhos me perseguem nos atalhos mentais que eu mesmo lhes mostrei, aproximam-se de mim talvez com a pressa igual à minha, cuja motivação é o denominador comum da brevidade do viver, e muitas vezes se deparam comigo até na tranquilidade sonâmbula de quando fecho os meus próprios olhos.

De fato, a partir do momento em que ficaram juntos e para todo o sempre, os dois cães me fazem acordar a qualquer hora do dia, trazendo-me, através daquela linguagem sobrenatural dos bichos, a mesma mensagem nua, crua e urgente enviada pela senhora do sono profundo: – Meu caro viajante, mergulhe logo e desfrute muito o mergulho, pois aquelas águas rubras correm ligeiras e, enquanto há tempo nesta vida, você ainda precisa aproveitar ao máximo a oportunidade de um banho quente no “Rio do Fogo”.

Orlando Frye Peixoto – Advogado

Bruno Lacerda


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